São Paulo: Descubra como aproveitar a 11ª maior cidade do mundo
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São Paulo:Descubra como aproveitar a 11˚ maior cidade do mundo.  

Concordei de muito bom grado assumir a missão de escrever um artigo sobre São Paulo, porque achei que seria prazeroso e fácil de fazer. O que poderia ser difícil em relação a esse tópico? Eu pensei, ingenuamente.

Então, a cada momento possível eu pensava em ideias sobre como me inspirar para escrever este artigo. Durante um café espresso, durante o caminho para o trabalho ou voltando dele, correndo no parque (que é um momento de inspiração para mim) e, claro, durante os momentos que eu reservei objetivamente em minha agenda para fazer isso exclusivamente.

Você não pode imaginar o quão improdutivo eu me senti. Eu tive muitas ideias, e nenhuma delas evoluiu para se tornar no mínimo algo digno de apreciação por você leitor. De qualquer forma, por mais que eu ache que estas palavras ainda carecem de qualidade, aqui vai minha visão sobre São Paulo.

Eu começo este artigo com um tópico não diretamente ligado à cidade.

Em primeiro lugar, aqui vai um reconhecimento de que tenho que trabalhar no meu perfil do LinkedIn. Sim, eu sei que ele precisa de alguma dedicação para atualizar as informações gerais.
Dito isso, alguns dos membros da minha rede de Linkediners (se é que existe tal palavra) podem ter concluído que sou uma espécie de coordenador acadêmico na FIA Business School em São Paulo – Brasil. Se você chegou a esta conclusão, você está certo. Eu sou o coordenador acadêmico do Americas MBA. No entanto, até agora não atualizei meu perfil no LinkedIn para exibir essas informações. Fazer isso seria fácil e rápido. Fico sem entender porque eu simplesmente não faço isso.

Não é incrível como tendemos a adiar algumas coisas que valorizamos como importantes? Coisas que nós apenas consideramos que podem ser feitas a qualquer momento no futuro, mas no final, nós nunca fazemos isso corretamente.

Mas, o que a natureza humana de postergar atividades em andamento tem a ver com São Paulo?

Muitas coisas, muito mais do que pensamos.

Pense nessa questão central:O que dizer sobre São Paulo

Eu poderia montar uma lista, escolher uma ênfase temática em uma área específica e descrever item por item para fornecer informações úteis sobre essa temática. Mas tenho que ser sincero, existem vários artigos na internet que são excelentes fontes de informação sobre São Paulo.

Evidentemente, eu realmente não sinto que eu seria bom em escrever um artigo com essa abordagem.

Alternativamente, pensei em discutir as oportunidades perdidas que tendemos a criar devido à atitude de não dar o devido valor ao que temos em uma cidade como São Paulo, por tomarmos as coisas de nossas cidades como se fossem garantidas. Este é o grande erro que me leva a perder oportunidades de conhecer melhor a cidade onde moro.

Portanto, este artigo é sobre como eu poderia (ou deveria) ajustar minha percepção e atitude em relação à minha cidade para aproveitar mais.

Então, aqui está a jornada a ser trilhada. Vou propor algumas respostas diferentes para a pergunta acima, e comentar sobre os insights gerados por cada uma dessas respostas.

1) Primeira resposta: “São Paulo é o lugar onde você tem tudo, menos o tempo”, e essa definição pode se aplicar a qualquer outra grande cidade do mundo. Mas cuidado! Será que realmente não temos tempo, ou usamos essa declaração apenas para justificar por que adiamos muitas coisas interessantes que poderíamos fazer aqui?

Um pouco dos dois, com certeza. Por um lado, o tempo é o ativo mais caro em São Paulo. Um típico paulistano entenderia o significado da frase “Se você puder ir trabalhar a pé, você é um milionário”.
Aqui vai outro ângulo de visão sobre esta frase. Faz sentido adiar algo que você estaria com vontade de fazer, porque supostamente alega não ter tempo?

Se você está pensando em morar em São Paulo por um tempo, venha e responda ‘não’ a ​​esta última pergunta. Você não pode imaginar como essa atitude é poderosa. Em menos de seis meses, você fará muito mais coisas do que a maioria dos paulistanos deseja fazer, mas não fez porque “não temos tempo”.
Vou dar um exemplo da minha experiência que mostra que esse objetivo é realizável.

Nossos alunos que vêm do exterior para o Accelerated International MBA fizeram coisas em São Paulo, que estão na minha lista há anos, e eu ainda não consegui fazer. E eles moram aqui por pouco mais de um ano. Sim, um ano e dois meses, aproximadamente.

Agora, você pode estar se perguntando o que eu sugiro que você faça se estivesse morando aqui.
Eu responderia que não sei. Mas certamente eu diria a você, com certeza, “dê o devido valor ao que você tem onde mora!”. Estas são palavras poderosas, ajuste a sua atitude para aproveitar ao máximo a cidade onde você vive.

2) Segunda resposta: “São Paulo é a cidade onde a relatividade do tempo se move de acordo com a sua atitude”.
O que quero dizer com isso? Uma pessoa pode achar que não tenha tempo para fazer coisas que gostaria de fazer, enquanto outra pessoa, com as mesmas restrições de tempo da primeira, pensaria exatamente da maneira oposta. A primeiro não faria essas coisas, a segunda, contudo, faria.

A diferença está na atitude.

É claro que algumas restrições exercem papéis críticos, e não quero ignorar a relevância disso. Estou escrevendo este texto aqui para destacar os benefícios dessa atitude, em relação à percepção da relatividade do tempo. É bem possível que fiquemos surpresos com o que podemos fazer adotando essa abordagem.

Acredite, essa é uma ótima atitude.

Aqui em São Paulo, temos o Museu de Arte de São Paulo (MASP), que os paulistanos gostam de dizer que tem a mais completa coleção de arte do hemisfério sul. No MASP há uma pintura de Renoir que é incrível. Eu não vou dizer qual, porque se você tiver a chance de visitar o MASP, você saberá de qual delas eu estou falando. Acredite em mim, você saberá.

Atitude, essa é a chave.

3) Terceira resposta: “São Paulo é a cidade do caos”.

Como no Dicionário de Cambridge: O caos é um estado de total confusão sem ordem.

Considere isso, para a maioria das pessoas que vêm do exterior, especialmente de países desenvolvidos, a primeira impressão pode ser uma confirmação inegável dessa definição.

Onze milhões de pessoas, mais seis milhões de pessoas que moram na região metropolitana, podem gerar muita sobrecarga de serviços. No entanto, os serviços funcionam à sua maneira e não estão necessariamente numa situação de caos. Caos seria não ter serviço nenhum.Tudo que você precisa fazer é planejar com antecedência. À medida que você se acostuma ao modo como eles funcionam, planejar com antecedência permite superar as limitações e fazer o melhor uso dos serviços com bons resultados.

Não poucas, mas por muitas vezes me surpreendi com nossos estudantes do exterior, que com apenas alguns meses vivendo aqui, encontram soluções para se movimentar e aproveitar a cidade, de uma forma que eu nem imaginava. Há serviços de bicicletas e patinetes elétricos compartilhados, cartões pré-pagos com RFIP para uso em ônibus, metrô e trens. Aplicativos como Uber e para serviços de táxi, serviços de compartilhamento de carros, farta oferta de serviços de alimentação com delivery que funcionam muito bem. Existem muitas conveniências por aqui.

4) Quarta resposta: “São Paulo é a cidade onde o trânsito é o pior”.

Bem, por mais que o trânsito às vezes possa parecer horrível aqui, ele não chega perto das piores cidades ao redor do mundo, sobre esse tema. Para as pessoas que dirigem carros particulares, a situação não é boa. O transporte público tem prioridade nas ruas, com faixas e preferências especiais nas transições.

Os táxis podem compartilhar as faixas de ônibus para que eles possam ir mais rápido do que os carros particulares.

O Waze é uma realidade aqui, as pessoas o adotaram como um aplicativo do dia-a-dia para economizar tempo e, em atitude colaborativa, tornaram o trânsito muito melhor.

O Uber também está disponível aqui, e os motoristas também cooperam no compartilhamento de notícias sobre como evitar trânsito.

Alguns motoristas podem parecer loucos, outros, pelo contrário, podem mostrar uma generosidade inesperada que não se encaixa em uma cidade grande. Mas eles não são alienígenas, são pessoas que concluíram que a cooperação é a única maneira de lidar com a tendência do caos. E acredite em mim, eles estão crescendo em número.

O serviço de metrô não é tão disseminado quanto os cidadãos gostariam que fosse. Mas onde está disponível, funciona bem. É limpo e a frequência das composições é bastante razoável. As horas de pico não são boas, porque são muito cheias. Não vamos nos esquecer, dezessete milhões de pessoas vivem na região metropolitana, o que sobrecarrega o sistema de transporte nos horários de pico. Se você tem a possibilidade de evitar as horas de pico, pode compensar o problema. Se não puder fazer isso, considere as diferentes rotas entre as linhas, porque você pode desviar das linhas sobrecarregadas. Porém, isso pode criar um aumento no tempo de deslocamento.

Os trens estão em um nível ao par, ou um pouco pior do que o serviço de metrô.
Algumas pessoas decidem voltar pra casa mais tarde à noite, fazendo um curso nas proximidades, ou simplesmente aproveitando o que a cidade tem a oferecer.

Em resumo, vamos concordar que São Paulo não é a cidade onde o trânsito é o pior, e sim “São Paulo é a cidade onde o trânsito é um gerador de oportunidades”.

Sim, eu concordo que não é para todos pensarem assim.

5) Quinta resposta: “São Paulo é a cidade em que uma pessoa desavisada pode regredir à média de tomar tudo como garantido”.

Esse talvez seja o principal fator que acomete a maioria das pessoas em São Paulo. Eu me incluo na lista.
Você tem quase tudo aqui, mas a sensação de tempo limitado faz com que se sinta fora do controle para fazer o que tem que fazer ou quer fazer. A maior parte de tudo que poderia fazer aqui, você tende a não fazer por causa da sensação de tempo limitado.

Não vamos nos esquecer, a percepção da relatividade do tempo depende da nossa atitude, e nós tendemos a usar esta percepção de tempo limitado para adiar as coisas boas que poderíamos fazer aqui. Essa atitude não vem apenas por causa da restrição de tempo. Vem do fato de que, quando se mora em um lugar como São Paulo, tendemos a dar como garantido tudo o que cidade nos proporciona.
“Eu posso fazer isso sempre que quiser, porque está ali, está por perto, está disponível a qualquer hora que eu queira. Então, por que me apressar?”.

Pensando nesse ângulo de visão, parece razoável, não? Mas aqui está a verdade nua e crua – quando pensamos e agimos assim, nós não vivemos no lugar, estamos apenas temporariamente habitando aquele lugar. Os anos vêm e vão, e nem nos arrependemos das oportunidades perdidas porque o valor que atribuímos a elas é subestimado, porque assumimos essas oportunidades como garantidas a qualquer momento.
Eu vou dar um exemplo. Quatro anos depois de me mudar para São Paulo, tive algumas semanas para viajar ao exterior em férias. Eu visitei Oslo, na Noruega, e uma coisa que eu tinha vontade de fazer é ver pessoalmente aquela famosa pintura de Edvard Munch – O Grito.

Visitei o museu de Munch, e decidi ver a pintura só no final. Como estamos acostumados a dizer no Brasil, a pintura era a “cereja do bolo”.

Eu vi todas as peças de arte do museu, que aliás recomendo que você visite se você tiver a oportunidade de ir a Oslo. Por fim, cheguei perto de onde a pintura está localizada, e o que eu vi?
Não estava lá!

Em vez disso, havia uma mensagem escrita que dizia:

“O Grito – Edvard Munch, versão de 1910: Esta pintura está agora em exibição no Museu de Arte de São Paulo – Brasil (MASP), devido ao acordo de parceria que temos com a instituição”.
O que? Atravessei o Oceano Atlântico todo, mais de 10.500 quilômetros, uma coisa que eu queria fazer era ver aquela pintura específica. E estava no MASP, na cidade em que eu morava?

Você está se sentindo solidário ou rindo da minha situação? Espere, a coisa foi pior.

Voltei para São Paulo, e o conhecimento de que o MASP fica na minha cidade fez com que eu adiasse a visita. Quando pensei em ir até lá, a pintura voltara ao Museu Munch, em Oslo.

Sim, eu sei, eu me sabotei o pior que pude.

Mais uma vez, perdi a oportunidade de ver a pintura, e aqui em São Paulo, na minha cidade.

Essa versão da pintura (Munch gerou quatro versões) foi roubada do Museu Munch em 2004 e só foi recuperada em 2006.

Não consigo contar quantas vezes meus amigos zombaram de mim por ter criado essa situação para mim mesmo.

A inegável verdade deste exemplo:

Nunca considere como garantido o que você tem em sua cidade. Aprecie cada uma das coisas. E não se engane, se você montar uma lista de cidades onde pode ter oportunidades inesperadas, São Paulo vai estar nela.

Uma breve conclusão

Dentre os significados do verbo em inglês “to live”, temos o significado de residir (habitar, ter um lar) e também o significado de estar vivo, ter uma vida, de aproveitar o que a vida tem a oferecer.

Enquanto em Português, temos dois verbos para cada um desses significados. (1) “to live pode ser morar (habitar/residir) no lugar onde está a sua casa, e (2) “to live é viver (estar vivo, aproveitar a vida).

Se você vier morar em São Paulo, você é absolutamente bem-vindo! Venha e faça as duas coisas: (1) viver (habitar / residir / ter uma casa) e (2) viver (viver a vida). Isso é o que uma experiência completa lhe concederia como cidadão do mundo.

Além disso, vamos manter contato, porque talvez você possa me dar informações úteis sobre como aproveitar ao máximo a vida em São Paulo.

Sem dúvida, posso aprender com você como fazer isso.

Obrigado.

Professor Nelson Yoshida 

Academic Coordinator of Americas MBA